Yin-sight

Em silêncio
dou voz à lua nova
que habita
o gênesis
das segundas-feiras

das histórias brutas
ainda
inlapidadas

Nos ciclos das marés,
as ondas
giram Katrinas, catracas,
caras marcadas pelas
crianças que choram a noite,
crianças inconsoladas que somos
nós e nossas
histórias da meia-noite

Cheia de lua eu sou
a origem do dilúvio
entre as pernas,
lavando restos
pratos, prantos e homens
que já não servem

livrai-me
mãe kali
das pestes

O silêncio
gesta um escândalo
crescente.
Lavoura meu sangue
já seco
no asfalto de Maio,
pra que nasçam
novas guerras
em nome das minhas

Choram cuícas
e virilhas.
Miram pupilas.

 

Arte: Árvore da Esperança – Frida Kahlo

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We can’t jump the track

A morte deixa muito mais do que leva. Vem foice e rasga, repuxa e arranca. Ceifadora, estilhaça, mas não extermina, vão-se as flores e ficam raízes doentes, sufocadas solo abaixo, famintas de oxigênio.

A morte larga muito mais que carrega. Segue caminho deixando abertas feridas imensas, recheadas de sangue, pus e insetos alojados. Alaga os buracos com mágoas salgadas, ondas amargas. Poço repentino em mar aberto. Afoga, afoga, até se encher de água, mas ainda restou um pulmão. O que fazer com o que fica?

Faltou engasgar um pedaço e agora sobra vivo um balão se debatendo cheio d’água. Sobraram dois dedos de oxigênio asfixiados na garganta e a permanência. Dois tiros atravessados. Doem pouco os buracos, muito a carne decepada que esqueceu de necrosar. Viva, permanece. Pulsante, permanece. A permanência fere de morte – e quem dera matasse – o que resta. Sobra, podre, o lixo do universo.

Duas únicas veias vivas sustentam a podridão que sobrou na carne límpida, que permanece protegendo vísceras. Bicho nenhum quer comer esse pedaço embalsamado e ele fica. A morte se foi e ficaram as larvas, a pele queimada escorrendo pelo rosto, que já morreu em meio a lava e agora desfigurado, permanece.

Foice à senhora. Ficamos.
Ó mãe, por que me abandonastes?

 

Arte: Kim Sung Jin

 

10 de Espadas

quando se teme
os dias escondem
em cada esquina
um cisco
avulso
que pousa no canto
do terceiro olho

o que eu enxergo
se não o medo
do outro?

o presságio é
uma carta de espadas
voltada pra dentro
fincada nos lapsos
do tempo
que carrega
levas de nós

o luto
é a forca
da coragem

o destino
é um ex-namorado
à espreita
da minha porta

mas eu não saio.

que será dele
quando notar
que nosso romance
não passou de uma hora
menos covarde
em que confiei
na sorte?

 

Arte: Abhishek Singh

You know I’m no good

O descuido
que esquece,
eu chamo de oração
em alcateia
da vontade que uiva em voltar

O que mais tu deixou escapar?

Presta atenção nesse teu cérebro, apaixonado,
passando rasteira, pra te ver trupicar
e cair de quatro nesse quarto,
rastejando calado caçando o isqueiro que esqueceu.
Coitado.

Cuida bem das digitais, ingênuas,
espalhando teu DNA por todos os restos dessas cenas
criminosas, censuradas, costuradas nas paredes.
Ficou também na tua pele?
No sorriso ridículo que desenha tua boca
lembrando dos meus orgasmos
em meio a uma tarde de trabalho?

Te orienta, que é traiçoeira a tua memória
esquecendo de apagar tuas pegadas
me colorindo linda em pleno álibi.
Enquanto eu, luz e sombra, carrego
uma chave de cadeia
escondida na garganta.

A pressa vendou teus olhos
cegou-te de noite
te pintou Cavaleiro de Ouros.
E caminha agora
pata ante pata
pro centro
do calabouço que eu carrego
no meio das pernas

Ficou também um tanto teu
no colo do meu útero
vibrando e zunindo
em frequencia baixa
pra atrair vira-lata.

Mantenho olhos na janela
e a boca aberta
rindo até engasgar.

Tu vai voltar.

 

Véspera de Carnaval

Quebrou-se um copo
e parte das digitais,
A identidade caiu
pia abaixo
buraco adentro

Entre panelas sujas,
panos de prato,
Escorregou o corpo
no piso frio
buscando
se enfiar em memórias

Cada gota dos olhos
carregava
a certeza de voltar
ao mar azul onde
vivíamos
trepávamos
bebíamos
todo dia
da própria
saliva

Fraquejaram os ossos
porosos
de lembranças,
Os músculos
trêmulos
não sustentaram
o peso
de mais um dia
de postura na espinha

A queda líquida
da dor
durou um ciclo
de lamentos,
uma música
de memórias,
Seis minutos e

Subi

ancoraram-se os pés
no samba da certeza

três dias
de folia
enterram
qualquer tristeza.

 

Imagem: 1978

Livres

Nascem as asas.

Asa nenhuma é formada. Moldada, esculpida, soldada, atracada.

Não se pode acoplar, não se pode evitar. Nascem as asas.

Nascem entre as entranhas. Estranhas fissuras rompendo músculos e ossaturas. Pesadas escápulas, que escapam sem hora marcada, sem pedir licença à nossa mente, aos outros corpos presentes, ao dia-a-dia dos senhores de respeito, cansados, que andam no circular ao nosso lado, em direção ao batente.

Senhores de respeito, cansados, apressados, mas sempre com tempo de sobra para nos lançarem olhares estreitos. Olhares de fica métrica, que nos medem o tamanho das saias, dos seios e dos medos. Devoram no café da manhã esses medos. Comem com espresso e cigarro cada um dos nossos trejeitos, visando cortá-los por todos os lados, até que não sobre nada. Mas nascem as asas.

Nascem subversivas as asas. Não há cesárea eletiva capaz de arrancá-las. Nascem de parto natural, pelo efeito hormonal do amor e da ira que explode n peito das meninas, cheias de cores, de flores, de vida. Cansadas de andar com as pálpebras cerradas, as cabeças tímidas e amedrontadas.

As testas para baixo, esperando a próxima invasão, marcada para daqui a trinta segundos, onde ela cruza com as vozes – por hora, mudas – que acompanham seus passos. Vozes latentes dos bons homens silenciosos, discretos, que logo imergem ao notar o primeiro sinal de quem passa, que consiste nas asas. Ainda que submersas, não passam despercebidas as asas, nem a fúria que estas despertam.

Nascem repentinas as asas. Do fundo das vísceras das palavras não ditas. São o esqueleto da bravura as asas. E o corpo da liberdade. Nascem de tudo o que arde na alma célebre das mulheres, que têm sua chama interrompida por esse monte de tecidos, desconfortáveis, ariscos, com os quais nos enrolam em nome da moda.

Nascem combatentes as asas. E não há argumento, carência, corrente, apreço, medo, silêncio, ameaça, mordaça, remédio, bebida, corda veneno, comida, trapaça, cultura, tortura, máscara, grito, piada, facada, músculo, nojo, tecido, nem tiro capaz de arrancá-las.

Essencialmente livres, nascem as asas. Nascemos nós. Ameaçando a produção em massa de mulheres que aceitam toda e qualquer desgraça, em nome dessa tradicional escravidão. Ó senhor cidadão, com quantos quilos de medo se oprime uma multidão?

Inevitavelmente livres, nascem as asas. Nascemos nós. Enlaçadas em nossa essência, dispostas a enfrentar nossas próprias verdades, a conversar com a ancestralidade, a compreender cada miudeza que cabe nesse espaço imenso que é nosso ser inteiro. A aceitar nosso tempo. A amar nossos ventos.

Se a estrada a caminhar é dolorida, sobrevoemos.

 

Imagem: Caroline Jamhour ❤

Ao seu tempo, as águas voltam a correr. Não sem dor. Ficam gravados na garganta os tempos de seca. As cordas vocais são guardiãs da memória. Das palavras. Dos impulsos. Dos gritos. Da seca. Guardam em seus cortes os tempos sangrentos. De berros. De areia. Vertem de suas fissuras lembranças do inferno. Uma corrente árida corrói amargamente a garganta. Lembrança dos tempos de seca.

É preciso ter paciência. Ao seu tempo, o rio se realinha. Divino, maravilhoso. O universo flui vivo no sentido certo. Sábio. A Terra sabe o que faz.  Não sem antes nos tomar os olhos, nos arranhar inteiros,pelas costas, nos marcar o sangue, o cérebro, as vias aéreas. Ao seu tempo a maré baixa, mas não sem antes nos deixar a morte, carregar os nossos e nossas partes.

Ninguém sai ileso de ninguém. Nem de nada. Cada passo que caminha sabe que ao seu tempo, surgirá um horizonte de esmeraldas. Em contrapartida a estrada é um labirinto recheado de farpas, cactos, pedras e verdades pontiagudas, afiadas, ceifadoras. Vão-se os anéis, os dedos e tudo o que sobra é uma longa caminhada em direção ao sol que, ao seu tempo, vai iluminar e clarear os dias, mas não sem antes borbulhar a pele queimada, engrossar a saliva e as palavras, sugar pelo suor todo minério que nos faz rocha disposta a permanecer em pé. Nos levar à queda.

Ao seu tempo haverá sol, céu, sal, água, cana, cor, colo, cascata, casa. A esperança é o passo que segue rastejando, sem saber quando esse dia chegar, quanto ainda haverá para molhar. Cada corte a mais é carne a menos. Cada dia a mais é dia a menos. Ninguém sai ileso.

 

Imagem: Thomasz Wieja